O cristão é feito como se faz o pão

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Mistagogia do rito de preparação dos dons

Autor: Filipe Vales

Tamanho:148X210mm
N.º de páginas: 168
ISBN 978-989-8877-51-2
1ª edição: Outubro de 2019

Colecção: Exsultet – 10

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«A liturgia terá um contributo significativo na superação da dicotomia da vida espiritual do homem contemporâneo na medida em que, em vez de espelhar as suas condições históricas, o consiga conduzir através do rito – dos seus gestos, símbolos e palavras – a um nível mais profundo do mistério da sua própria humanidade, convertendo-se num lugar de encontro com os outros e com o Outro, que por sua vez ilumine a sua condição histórica». (Filipe Vales)

Apresentação

O trabalho de investigação de Filipe Vales, O cristão é feito como se faz o pão: mistagogia do rito de preparação dos dons, sugere-nos uma questão levantada por alguns expoentes do Movimento Litúrgico e que envolve o próprio modo de entender a fé cristã: a linguagem performativa da celebração litúrgica. Segundo Odo Casel[1] e outros liturgistas, acentuaram-se nos últimos séculos dois aspectos da fé: o cognitivo, interessado sobretudo pelas verdades reveladas, e o ético, que versava sobre as regras que o cristão devia respeitar no seu comportamento. Ora, a exasperada acentuação do aspecto dogmático e moral teve consequências letais para a liturgia. Na verdade, se insistimos exclusivamente nestes dois âmbitos da fé, somos levados a pensar que a liturgia tem o objectivo de iluminar os crentes sobre os conteúdos da própria fé, estimulando-os para que sejam coerentes com esta fé e seus conteúdos, isto é, somos forçados a reduzir a celebração cristã à sua função pedagógica e cognitiva.

Esta redução desmorona-se, no entanto, perante o facto de a Igreja nunca ter, sequer, colocado a possibilidade de substituir totalmente a liturgia pela pregação, o ensinamento ou a parénese, justamente porque a celebração litúrgica depende da sua dimensão performativa. A pesquisa sobre esta dimensão da celebração litúrgica não apresenta, efectivamente, uma novidade: encontramos, desde os anos 70, muitos estudos sobre o argumento[2]. Porém, o que nos interessa referir nesta apresentação ao estudo de Filipe Vales é aquele aspecto da performatividade ritual que é a acção. É esta, na verdade, que tem alguma coisa de original a dizer em relação ao conhecimento, como podemos constatar deste estudo que, depois do levantamento histórico do rito da preparação dos dons, prossegue com uma análise da linguagem não-verbal presente no rito em questão. O elenco dos códices não verbais apresentados e estudados pelo autor, demonstram que o rito, em geral, vai muito além dos dois pólos acima mencionados – o aspecto cognitivo e o aspecto ético-pedagógico. Nele não há, de modo prevalente, uma função cognitiva, porque não é apenas um conjunto de conteúdos, nem desempenha unicamente uma função pedagógica, porque não é um simples conjunto de formas comportamentais.

O rito é, precisamente, o lugar onde essas duas funções se integram e se legitimam reciprocamente, porque ele é tanto forma, quanto é conteúdo. Por um lado, o rito é um comportamento que decalca as convicções mais profundas de uma comunidade que assume o papel de sujeito da celebração, isto é, revela-se numa forma que decalca o conteúdo. Por outro lado, o rito é um conjunto de convicções que não tem a mesma legitimidade fora daquele comportamento; logo, é um conteúdo cujo valor depende da forma.

A dimensão performativa do rito é esta íntima conexão entre forma e conteúdo, que na liturgia cristã tem o nome de sacramento. A acção sacramentária, de facto, é forma e conteúdo da fé cristã. Trata-se de uma situação estratégica que não se encontra noutros lugares. Não se encontra na moral, porque na liturgia opera-se buscando inspiração na fé cristã, enquanto a acção, mesmo se boa e heróica, pode ser interpretada independentemente do âmbito cristão. O próprio comportamento de Jesus Cristo foi apreciado independentemente da referência a Deus. Por conseguinte, a moral é uma forma comportamental cujo conteúdo religioso não é imediatamente evidente.

Do mesmo modo, a conexão entre a forma e conteúdo presente na liturgia também não se encontra no dogma. Quando alguém se refere aos conteúdos da fé, transmite sempre alguns pensamentos, que, como tais, permanecem bem diferentes da forma expressiva em que são comunicados. Por exemplo, a língua grega ou portuguesa, com que se anuncia ou catequiza, apresenta uma forma expressiva que não tem uma ligação intrínseca com os conteúdos da fé cristã. No dogma realiza-se o oposto da moral: o dogma é conteúdo de fé, cuja forma religiosa não é imediatamente evidente.

Assim, a celebração litúrgica dissolve a dicotomia do dogma e da moral. Ela apresenta uma sequência de acções cuja forma comportamental é estranhável, assim como é estranhável o rito que for visto com olhos não religiosos. Esta estranheza implica ou a negação global da liturgia ou o reconhecimento do seu valor no contexto religioso-cristão. Com efeito, ao dar de comer a um faminto, realiza-se uma acção cuja forma comportamental não revela imediatamente o conteúdo cristão; do mesmo modo, na celebração de um baptismo ou da eucaristia, realiza-se uma acção cuja forma comportamental evidencia o conteúdo cristão. A liturgia é forma comportamental cujo conteúdo religioso-cristão é imediatamente evidente. Aqui está também a eficácia da liturgia, porque as acções sacramentárias implicam, de certo modo, uma espécie de alteração da realidade, independentemente das acções morais dos celebrantes.

Tendo em conta estes pressupostos, a dimensão performativa da celebração litúrgica permite especificar, ainda, os dois factores constantes e fundamentais do complexo ritual. Antes de mais, os elementos que normalmente desempenham o papel de utensílios, tornam-se de tal maneira activos na liturgia, que podem ser considerados como “objectos agentes”. Simultaneamente, a liturgia implica a actuação do sujeito agente, a comunidade (Igreja), mas que não actua ou age por si só, porque prevê a intervenção da presença de Cristo, em nome do qual se realiza a acção (SC 7).

Estes dois factores baralham o modo comum de pensar e de significar a realidade. A liturgia, de facto, não lhes atribui significados isolados, porque os considera os pontos cardeais de uma globalidade de sentido que emana da sua lógica interna. Se perguntarmos qual é o significado do rito, é preciso dizer que esse significado consiste numa globalidade de sentido que só se extrai da totalidade da acção. Esta globalidade de sentido não está dentro dos limites do significado: se temos muitos significados, nenhum deles possui a capacidade de resumir todos os outros, porque cada um está sempre disponível para outro significante que o enriquece semanticamente.

A dimensão performativa reside nesta capacidade de ser um significante que produz sentido. Se a acção ritual se apresentar descaracterizada, esmorece também o significante, perdendo-se a riqueza de significados que ele pode suscitar. Nesse menosprezo, a liturgia cristã deixa de ser uma fonte autêntica de fé e a lex orandi deixa de ser uma fonte da lex credendi. A liturgia, entendida como acção ritual e significante aberto, é realmente um modo insubstituível de viver a fé, porque a lex orandi é verdadeiramente a lex credendi. A capacidade do significante litúrgico é de tal maneira intransmissível que o torna insuperável em relação à globalidade de sentido que dele germina. Pensemos numa obra de arte e confrontemo-la com a descrição que dela pode dar um entendido. O sentido e a emoção que brota da obra de arte não encontra uma correspondência adequada na sua descrição. O sentido de fé que brota da celebração litúrgica também nunca será absolutamente reproduzível fora da celebração.

Debruçando-se unicamente sobre um sintagma da totalidade da acção litúrgica – o rito da preparação dos dons –, o contributo de Filipe Vales não tem a capacidade de dizer uma palavra conclusiva sobre a liturgia em geral, mas possui a capacidade de nos abrir à perspectiva icónica que dela brota, pela qual somos impelidos para a globalidade de sentido, que só se extrai da totalidade da acção. Esta perspectiva impede a visão espectacular dos participantes. Por visão espectacular entende-se aquele olhar do exterior que permite abraçar toda a cena, de olhar o todo como se fosse compreendido totalmente, e que, por si próprio, é mais que o todo. Bem-vistas as coisas, o espectador transcende a cena como Deus transcende o mundo. O crente, porém, não pode ser Deus, não pode ser um espectador; de modo particular, o cristão, convicto da radical transcendência de Deus, não se pode colocar fora da liturgia, como um espectador que, olhando-a do exterior, a transcende. Ele pode, apenas, estar na liturgia sob o olhar de Deus.

Esta perspectiva icónica abre à perspectiva tátil, porque no rito no qual falta o espectador, ninguém é visto a celebrar, porque todos celebram. Portanto, ninguém terá de convencer, ninguém terá de mostrar que está a celebrar. As acções rituais não são vistas e interpretadas como símbolos do sagrado e do divino, mas são vividas como um genuíno contacto com o sagrado e com o divino. Não há um público que interpreta olhando, mas uma comunidade que vive tocando. Obviamente também a comunidade vê e interpreta, mas de um modo que é inseparável do viver e do tocar: O cristão é feito como se faz o pão!

Sem dúvida, a dimensão performativa do rito alcança um dos seus níveis mais profundos nestas duas perspectivas, icónica e táctil, mas que, nem por isso, deixarão de estar em relação com os outros códices que o autor descobre na linguagem não-verbal do rito em questão, numa contínua abertura para o sentido global que é típico do significante litúrgico.

 

+ Bernardino Ferreira da Costa
Abade de Singeverga

[1]        O. Casel, Fede, Gnosi e Mistero. Saggio di teologia del culto cristiano, Messaggero, Pádua 2001.

[2]        Cf. J. Ladriere, «La performativité du langage liturgique», Concilium 9:2 (1973) 53-64; G. Lardner, «Communication Theory and Liturgical research», Worship 51 (1977) 299-307; A. N. Terrin, Leitourgia. Dimensione fenomenologica e aspetti semiotici, Morcelliana, Brescia 1988; G. Bonaccorso, «Le regole conversazionali di Grice; verifica su alcuni testi liturgici», in Comunicazione e ritualità. La celebrazione liturgica alla verifica delle leggi della comunicazione, ed. L. Sartori, Messaggero, Pádua 1988, 243-260; Idem, Il rito e l’altro. La liturgia come tempo, linguaggio e azione (monumenta Studia Instrumenta Liturgica, 13), Editrice Vaticana, Vaticano, 2001, 113-132; P. De Clerck, Le langage liturgique: as necessite et ses traits spécifiques», Questions liturgiques, 73 (1992) 15-35; I. Renaud-Chamska, «Les actes de langage dans la prière», La Maison-Dieu 49:4 (1993) 87-110.

Filipe de Sousa Vales

Nasceu a 27 de Março de 1992 no Porto.
Concluiu em 2019 o mestrado integrado em Teologia no Centro Regional do Porto da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.
O autor é também economista, formado pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP-UP), tendo apresentado uma dissertação de mestrado em 2015 sobre o pensamento económico católico.

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ISBN 978-989-8877-51-2
1ª edição: Outubro de 2019

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