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A vida em Cristo

10,00 €
Com IVA

Autor: Nicolau Cabasilas

Tamanho:148X210mm
N.º de páginas: 288
ISBN 978-989-8877-65-9
1ª edição: abril de 2020

Colecção: Exsultet – 12

Título original: Perì tēs en Christō zoēs

«O que é de Cristo é mais nosso do que aquilo que é de nós». 

Nicolau Cabasilas



Quantidade

Apresentação

 

Alegramo-nos profundamente com a publicação em língua portuguesa da obra prima, A vida em Cristo, de Nicolau Cabasilas. Sem dúvida, é um precioso contributo para o aprofundamento da vida segundo o Espírito, a vida em Cristo. Pelo enorme valor teológico e espiritual em torno dos sacramentos, encontraremos a biologia da Liturgia na espiritualidade cristã[1].

Sobre a vida de Nicolau Cabasilas (1320-1391) possuímos poucos dados. Foi um célebre teólogo bizantino, leigo, do século XIV. Alguns referem o seu nascimento a 1320 e a sua morte em 1391[2]. A sua terra natal é Tessalónica. Os últimos anos da vida passou-os num mosteiro do monte Athos.

Além de A vida em Cristo, Cabasilas escreveu A explicação da divina Liturgia[3] e alguns discursos e homilias. A vida em Cristo é obra de capital importância para a teologia espiritual e litúrgica. Aqui, apresenta-se a vida sobrenatural como uma vida de união a Cristo que se nos comunica pelos sacramentos e à qual devemos permanecer com a colaboração da nossa vontade[4].

Cabasilas é uma das luzes da Igreja grega do século XIV, um dos seus melhores escritores. O estilo literário distingue-se pela simplicidade e clareza perfeitas. A sua capacidade de síntese dos autores da Tradição cristã, a grande fundamentação bíblica, tornam-no original e de alto valor teológico, espiritual e litúrgico.

Encontramo-nos diante da obra fundamental e original da teologia espiritual bizantina, que liga intimamente a santidade e os mistérios, numa visão mística do mundo. Não pode, contudo, considerar-se um tratado de iniciação aos mistérios (Iniciação cristã), porque a explicação ritual é secundária. Existe, porém, uma exceção para o livro V, que descreve e interpreta o rito da consagração do altar. O objeto do discurso é a vida cristã, como vida de união a Cristo, que se comunica a nós através dos sacramentos.

Assim, a vida cristã é como que um itinerário sacramental. A obra da salvação acontece no homem por meio da vida de Cristo, comparada a uma semente plantada na alma e que se desenvolve na participação com os sacramentos. O homem é chamado a colaborar com o exercício das virtudes, ele é como o vivente em Cristo e Cristo como o verdadeiro homem.

O autor pergunta-se a si mesmo, no capítulo 7º do II livro: «Mas que é a vida de Cristo?», ao que respondeu no capítulo 6º do I livro: «Esta é a vida em Cristo, suscitada pelos divinos mistérios, mas parece que a diligência do homem pode também contribuir algo para ela» (p. 46).

Esta obra articula-se em sete livros: o primeiro, trata da vida em Cristo nos sacramentos da Iniciação no seu todo (Batismo, Myron e Eucaristia); para no segundo, terceiro e quarto falar de cada um, em particular; o quinto é consagrado ao altar e seu simbolismo; o sexto refere-se aos deveres da vida cristã em geral; e o sétimo ao pecado que entristece o cristão e à virtude da alegria. A divisão pode ser feita em três grupos: 1. livro I a V – a vida em Cristo formada pelos mistérios; 2. livro VI – a relação entre o Dom de Deus e a colaboração da vontade do homem; 3. livro VII – trata da perfeição do cristão; o título é diferente dos anteriores, não referindo a “vida em Cristo”.

“A vida em Cristo”, uma expressão usada com frequência nas cartas paulinas, tem início na vida presente e será perfeita na vida futura. É Cristo que se une aos homens pelos mistérios, comunicando a vida nova. A vida presente é descrita em termos dialéticos: “obstáculo – apoio; risco – possibilidade”. Os mistérios dão a possibilidade de nascer na eternidade, sendo a porta da justiça, e a história da salvação é o modo de nela participar.

O Batismo, primeiro dos mistérios, é o início da vida em Cristo. Cabasilas diz que: «o batismo é um nascimento, o óleo perfumado [myron] é em nós princípio de atividade e movimento, o pão da vida e o cálice eucarístico são verdadeiro alimento e verdadeira bebida» (p. 50). Para alguém ser batizado significa nascer segundo Cristo. Primeiro, é lavado (Batismo) e, depois perfumado (Confirmação), para aceder à sagrada mesa (Eucaristia). Muitos nomes são atribuídos ao Batismo: «Nascimento, renascimento, nova criação, sigilo, imersão, veste, crisma, dom gratuito, iluminação e banho» (p. 52). Mas todos significam o banho que é o princípio da vida em Cristo. A experiência sublime acontece no Martírio, o Batismo de sangue. Quanto aos símbolos do Batismo: As lâmpadas, os cânticos, os coros, as aclamações, tudo reflete a luz e o seu fruto é a alegria e o amor. O grande efeito do Batismo é apagar os pecados e reconciliar Deus com o homem, tornar o homem filho de Deus para preparar a vida futura. O mistério do Batismo é princípio da vida em Cristo. É a lógica do homem novo, na dialética: morte – ressurreição, que é a lógica da liturgia, cujo centro é o mistério pascal de Cristo.

O livro III é breve. Neste, Cristo aparece como o crisma no tempo. O myron é a comunhão do espírito.

Para o autor, a iniciação nos mistérios e o exercício da vontade na virtude, unem os homens a Deus e nisto consiste a salvação. O myron unge a igreja e torna-a casa de oração.

A mesa é o cume da vida. É o sublime mistério, que confere a perfeição aos outros mistérios. Um grande realismo sacramental da Eucaristia está patente neste livro. Fala-se da assimilação física do corpo e do sangue. À vida espiritual associa-se o realismo físico da Eucaristia: precisamos sempre da carne de Cristo. Com a Eucaristia, o autor aprofunda a doutrina da incorporação a Cristo: «se Cristo permanece em nós, que é que ainda poderá faltar?» e «Se permanecemos em Cristo, que mais podemos desejar?» (p. 121). A analogia ao Corpo de Cristo, leva-o a marcar o seu cristocêntrismo, ao referir-se à comunhão frequente, para que o corpo seja inteiro: membros, cabeça, coração.

Depois de ter prestado atenção à Iniciação cristã, dá agora relevo ao mistério do altar, sublinhando o seu contributo da relação intima na vida em Cristo. Expõe o rito bizantino e dá a sua interpretação. As vestes e a atitude do Bispo representam o tipo do altar humano. O modelo do altar é o próprio Bispo, pois «só a natureza humana pode ser verdadeiramente templo e altar de Deus» (p. 172). Estabelece, uma relação direta entre a Iniciação cristã e a consagração do altar: «recorda o Batismo, a divina unção, o cálice e a mesa que recebe o sagrado pão» (p. 174). Insiste, ainda, na proximidade dos mártires a Cristo. Mostra, depois, a correspondência entre o altar e Cristo e que o altar devem ser os cristãos.

As Bem-Aventuranças oferecem-nos o critério de procurar a coerência da verdade litúrgica, como memória ativa e recordação dos mistérios. A memória de Cristo deve ser incessante. Por esta lógica, querer o bem não é difícil, mas acolhê-lo, conservá-lo, requer cansaço e aplicação de um certo método. O fruto dos bons pensamentos são as Bem-Aventuranças: a pobreza de espírito; a contrição dos pecados; a mansidão; a misericórdia. Por outro lado, a pureza do coração, a paz, e a justiça nascem da meditação dos mistérios e exercitam a alma para a santidade. A Eucaristia é a recordação constante de Cristo «o pão que verdadeiramente fortalece o coração do homem» (p. 230). A ação, o desejo e o pensamento são características presentes na visão antropológica de Cabasilas.

A dialética: tristeza – alegria, a primeira quase conatural à existência humana e a segunda conatural à liturgia, aparecem neste livro bem retratadas. A liturgia é assim a alegria da existência. Daí que os frutos dos mistérios sejam a retidão e a bondade. A graça de Deus e o empenho de que recebem os dons interligam-se. Para quem vive em Cristo, o itinerário começado na Iniciação cristã culmina na caridade: «que é que, pois, se pode chamar mais justamente vida do que a caridade?» (p. 279).

Ao ler este precioso livro, verificamos como Cabasilas nos apresenta a espiritualidade cristã de base, que parte da Iniciação cristã para chegar à caridade. No último livro, define: «Esta é a vida em Cristo: assim está oculta e assim aparece à luz das boas obras, luz que é a caridade» (p. 278).

Cristo faz-se nosso companheiro. Ele é o único modelo a contemplar. É uma pessoa real, o Verbo de Deus fez-se homem, enviado na «plenitude dos tempos... nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos» (Cf. Gl 4, 4-5). Efetivamente, Cristo não é o meio de santificação, mas a estrutura da nossa santidade.

A teologia Paulina da vida em Cristo, do Corpo de Cristo e da morte e ressurreição, aparecem claras neste livro nitidamente cristocêntrico. Os mistérios são quase janelas onde entra o sol da justiça, para a respiração deste ar de vida cristã, formada pelos sacramentos.

A vida em Cristo é pois, um programa de vida espiritual, onde o papel de Deus se desenvolve pelos sacramentos e o do homem pela sua colaboração. O encontro de Deus com o homem não é o resultado de um duplo movimento: do homem que procura e de Deus que o encontra; mas obra única de Deus. Foi Ele que tomou a iniciativa: «a ovelha não procurou o pastor, a dracma não procurou a dona de casa» (p. 28). Em Cristo, a imagem de Deus é levada à perfeição e à glória maior que em Adão.

Sob a perspetiva antropológica, o teólogo bizantino diz que: «só o Salvador foi o primeiro e único a revelar o homem verdadeiro e perfeito nos costumes, na vida, em tudo» (p. 226). Ninguém é tão santo como o homem, a partir do momento em que Deus entrou em comunhão com a sua natureza. Na deificação dos homens, Deus exprime o seu poder. Este é um privilégio inigualável e uma inaudita novidade, que o homem se torne igual em honra e divindade à Trindade. A deificação é o fim da Encarnação que se cumpre na Eucaristia, pela qual Cristo se funde em nós.

De facto, os sacramentos dispostos por Deus levam-nos a ser com Cristo: «batizados para morrermos da sua morte e ressurgirmos com a sua ressurreição; fomos crismados para nos tornarmos participantes da unção real da sua deificação; finalmente, comendo o pão santíssimo e bebendo do diviníssimo cálice, comungamos a própria carne e o próprio sangue que o Salvador assumiu» (p. 49).

Auguramos que a leitura desta sublime obra seja mais um contributo à espiritualidade e à mistagogia da liturgia.

+ José Manuel Garcia Cordeiro
Bispo de Bragança-Miranda
Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade

 

 

 

 



[1]        Expressamos, desde já, o nosso agradecimento ao tradutor, Padre Luís Ribeiro de Oliveira, pela versão desta obra profunda e complexa, e ao revisor do texto, Professor Artur Morão, que sistemática e pacientemente cotejou o nosso vernáculo com o original grego da edição Migne [PG 150, cols. 491-726]. O leitor poderá assim confiar plenamente na fidelidade da presente tradução ao discurso tão característico de Nicolau Cabasilas. Os títulos e subtítulos dos capítulos obedecem aos critérios da edição italiana (Nicola Cabasilas, La vita in Cristo, Città Nuova Editrice 32000), que não aparecem no original grego.

[2]        Cf. Garzanti, M., Cabasilas, Nicola, in Ermano, A. (ed.), Dizionario enciclopedico di spiritualità, vol. 1, Roma 1990, 403-404.

[3]        N. Cabasilas, Explication de la Divine Liturgie, Sources Chrétiennes 4bis, Paris 1967.

[4]        Cf. Salaville, S., Cabasilas (Nicolas), in Dictionnaire de spiritualité, ascétique et mystique, doctrine et histoire, II,1, Beauchesmes, Paris 1953, 1-9.