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Apotegmas dos Padres do Egito

5,00 €
Com IVA

Traduzidos do grego para o latim por são Martinho de Dume

Introdução e tradução portuguesa: Hermenegildo Faria

Tamanho:148X210mm

N.º de páginas: 80

ISBN 978-989-9288-23-2

1.ª edição: julho de 2026

Coleção: Exsultet – 21

Excerto e Índice »

Nascidos no deserto do Egito entre os séculos IV e V, os Apotegmas dos Padres do Egito constituem uma das obras fundamentais da espiritualidade cristã. Nas suas breves sentenças, os antigos monges transmitem uma sabedoria marcada pela humildade, pelo silêncio, pelo discernimento e pela incessante procura de Deus.

Traduzidos do grego para latim por são Martinho de Dume, estes textos desempenharam um papel decisivo na difusão da tradição espiritual oriental no Ocidente e na formação do monaquismo peninsular.

A presente edição, enriquecida com uma introdução de Hermenegildo Faria, oferece ao leitor as chaves históricas e espirituais para compreender uma obra cuja força permanece intacta. Mais de quinze séculos depois, a voz dos Padres do Deserto continua a interpelar quem procura uma vida mais autêntica, mais livre e mais próxima de Deus.

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Prefácio

Os Apotegmas dos Padres do Egito pertencem àquelas obras que nunca envelhecem. Não porque ignorem a passagem do tempo, mas porque falam daquilo que permanece em todos os tempos: o coração humano, o combate interior, a liberdade espiritual e a procura de Deus. Nascidos no deserto do Egito entre os séculos IV e V, estes breves ditos atravessaram os séculos e as fronteiras culturais até chegarem ao Ocidente, onde encontraram, entre os seus mais notáveis transmissores, são Martinho de Dume e de Braga.

A tradução latina realizada por são Martinho não foi um simples exercício filológico. Constituiu um verdadeiro ato de mediação espiritual. Ao verter para latim a sabedoria dos antigos monges do deserto, tornou acessível à Igreja hispânica um património que até então permanecia reservado ao mundo de língua grega. Dessa forma, são Martinho tornou-se uma das principais pontes entre o Oriente cristão e o Ocidente, permitindo que a experiência espiritual dos Padres do Deserto marcasse profundamente a formação do monaquismo galaico e, através dele, uma parte significativa da tradição espiritual europeia.

Mas a grandeza desta obra não reside apenas na sua importância histórica. Cada apotegma é uma palavra breve, despojada de ornamentos, que parece esconder mais do que diz. O seu estilo lembra as sementes do Evangelho: pequenas, discretas, mas capazes de produzir abundante fruto. Não pretendem oferecer tratados de espiritualidade nem sistemas teológicos. Antes convidam o leitor a uma escuta atenta, a uma meditação paciente e, sobretudo, a uma transformação da vida.

O leitor contemporâneo poderá estranhar a linguagem austera destes anciãos, marcada pelo silêncio, pelo jejum, pela vigilância e pelo combate contra as paixões. Contudo, por detrás dessas expressões encontra-se uma experiência profundamente humana. Os Padres do Deserto conheciam a fragilidade da condição humana, a instabilidade dos pensamentos, a força do orgulho, da ira, da vaidade e do desejo de domínio. Por isso insistem repetidamente na humildade, na guarda da língua, no discernimento dos pensamentos, na caridade e na misericórdia. A sua pedagogia espiritual não procura condenar o homem, mas conduzi-lo à liberdade interior, onde a graça de Deus pode agir plenamente. Como se pode ler: «a humildade não é um custo, mas é o sal que tempera todo o esforço» e «o verdadeiro monge é humilde, pacífico e cheio de caridade».

Talvez por isso estes textos continuem a falar também àqueles que não vivem em mosteiros. O deserto dos antigos monges permanece atual, embora tenha mudado de geografia. Hoje encontra-se frequentemente no excesso de ruído, na dispersão permanente, na dificuldade em permanecer em silêncio e em escutar a própria consciência. Os apotegmas recordam-nos que a verdadeira batalha não se trava contra os outros, mas dentro de nós mesmos; que a paz começa pela conversão do coração e que nenhuma reforma do mundo pode dispensar a reforma da própria vida.

A presente publicação editada pelo Secretariado Nacional de Liturgia pretende colocar novamente ao alcance do leitor uma das mais preciosas coleções da espiritualidade cristã antiga, preservando a simplicidade e a força da tradição transmitida por são Martinho de Braga (Dumiense).

Com a sua virtude e sabedoria, diz santo Isidoro de Sevilha, a quem dedicou um capítulo do seu livro Varões Ilustres: «Martinho de Dumio, santíssimo Pontífice de um mosteiro, chegou por mar desde as regiões orientais à Galécia e, ali, depois de ter convertido os Suevos da impiedade ariana à fé católica, instituiu a regra da fé e da santa religião, reformou as igrejas, fundou mosteiros, redigiu de maneira abundante preceitos para a educação religiosa».

Graças à sua dedicação apostólica e à sua pregação, os Suevos abandonaram a heresia ariana e abraçaram a fé católica. Comprometeu-se na erradicação dos costumes da idolatria, inclusive linguísticos, como na designação cristã dos dias da semana, e escreveu importantes obras morais, catequéticas, pastorais e de vida monástica.

 Ainda hoje, a Liturgia ortodoxa celebra no próprio dies natalis a sua memória sob o título: São Martinho, bispo de Braga. O grande Arcebispo São Martinho merece ser mais e melhor conhecido e apreciado.

A substanciosa introdução do Cónego Hermenegildo Faria, Pároco de Dume, é, por si só, um contributo de grande mérito. Fruto de uma investigação rigorosa e de um conhecimento das fontes bíblicas e patrísticas, oferece ao leitor um sólido enquadramento histórico, literário e espiritual, esclarecendo a génese destes apotegmas, a sua transmissão através do nosso são Martinho e a sua duradoura influência na tradição monástica do Ocidente.

Este livro não deve ser lido com pressa. Os próprios Padres do Deserto ensinavam que uma única palavra, acolhida e vivida, vale mais do que muitas palavras apenas escutadas. Talvez seja esta a melhor forma de entrar nestas páginas: deixar que cada apotegma se transforme numa companhia diária, numa ocasião de exame interior e numa escola de sabedoria. Assim, a voz daqueles antigos monges continuará a cumprir a missão para a qual foi preservada ao longo de mais de quinze séculos: recordar, geração após geração, que o caminho para Deus começa sempre pela conversão do coração.

+ José Manuel Garcia Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade

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