- Novo
Autor: François-Xavier Bustillo
Prefácio: Adelino Ascenso, SMBN – Presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP)
Tamanho:148X210mm
N.º de páginas: 144
ISBN 978-989-9288-10-2
Coleção: Hodie – 17
Título original: Passons sur l’autre rive – Pour une vie religieuse renouvelée
© Nouvelle Cité 2022 – Domaine d’Arny 91680 Bruyères-le-Châtel
www.nouvellecite.fr
A vida religiosa é hoje profundamente interpelada e abalada por uma sociedade secularizada e amplamente descristianizada. Significa isso que já não tem nada a dizer, que deixou de atrair e de fazer sentido para os jovens do nosso tempo?
A vida religiosa constrói-se e amadurece de crise em crise e de conversão em conversão. Por vezes surgem novas intuições que pretendem ser faróis orientadores, mas que acabam por revelar-se apenas reações voluntaristas e oportunistas: tentam salvar a vida religiosa, mas correm o risco de obscurecer ou mesmo enterrar o Evangelho. O nosso tempo exige, por isso, que abandonemos visões marcadas pela raiva, pelo cansaço e pelo medo, para viver a vocação e a missão com alegria, audácia e autenticidade.
Entre o conforto e o esforço, emergem hoje duas visões da vida religiosa que se tornam perigosamente caricaturais. Torna-se, então, essencial redescobrir a dinâmica de um verdadeiro coração a coração, conscientes de que a vida fraterna constitui o ecossistema vital e sustentável dos religiosos.
É a partir deste ponto que somos chamados a “passar para a outra margem”, como Jesus tantas vezes exortou os seus discípulos: escutar a sua voz e deixar-nos conduzir por uma mobilidade carismática ousada, fiel ao Evangelho e aberta aos desafios do presente.
O autor
François-Xavier Bustillo, nasceu a 23 de novembro de 1968, em Pamplona, Espanha. Mais tarde recebeu a nacionalidade francesa.
Aos dezessete anos ingressou na Ordem dos Franciscanos Conventuais em Pádua, Itália, onde recebeu a formação religiosa, que viria a completar no Instituto Católico de Toulouse. Foi ordenado sacerdote a 10 de setembro de 1994 e enviado para França, onde foi Superior Provincial e Superior do Convento de são Maximiliano Kolbe em Lourdes. Foi delegado episcopal para a proteção de menores e adultos vulneráveis da diocese de Tarbes e Lourdes.
O Papa Francisco nomeou-o Bispo de Ajaccio, na Córsega, a 11 de maio de 2021.
Foi criado Cardeal no Consistório de 30 de setembro de 2023.
A 4 de outubro de 2023, foi nomeado membro do Dicastério para o Clero.
Apresentação
1. Ao lermos a Introdução da obra do cardeal François-Xavier Bustillo, ficamos a saber o que pretende com o seu livro Passemos à outra margem. Por uma vida religiosa renovada. Trata-se de «colocar o amor no centro», estimular um encontro de corações, na consciência de que «a vida fraterna amigável» é o «ecossistema» da vida religiosa. Renovarmos a vida religiosa, de modo a que escutemos o apelo de Jesus a que nos movamos audaciosamente e que não deixemos esmorecer em nós o ímpeto inicial. Assim, passar para a outra margem não é fugir, mas sim recentrar o foco e mergulhar no núcleo daquilo que é a razão de ser da vida consagrada, sempre assente num projeto de «amor intenso e transbordante». Ao longo dos quatro capítulos, vamos peregrinando com o Autor e damo-nos conta de que a sua experiência de pastor, como Bispo de Ajaccio (França), e o seu carisma de franciscano lhe confere autoridade para penetrar naquilo que muitos de nós intuímos, embora nem sempre o consigamos exprimir tão claramente como ele o faz.
2. «Reumanizar a sociedade» é o título do primeiro capítulo. Sem mais delongas, afirma que a missão da vida religiosa não pode significar qualquer fuga do mundo que nos interpela, desafia e desassossega. Também não se trata de condenar o mundo, mas sim de o amar, com todas as suas tensões, com «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias» (GS 1), sem intenções, mais ou menos veladas, de domínio autoritário ou protecionismo ingénuo; evitando leituras rápidas ou impregnadas de emoção. Em seguida, François-Xavier propõe uma meditação sobre cinco registos da vida atual, que são preocupantes e exigem «uma leitura de fé e esperança»: um género de sistema da sociedade do fazer, da pressão para se ter sucesso, do esforço para agradar, da ambição de perdurar e do drama da fragilização afetiva. O «faço, logo existo» conduz a uma ação desordenada, em detrimento do «ser» e da gratuidade; perde-se a capacidade de usufruir do ócio criativo e esvai-se o essencial, embora esta fixação no «fazer para existir» levante questões e comece a encontrar resistências. A dependência do agradar e a «ditadura da aparência» forçam a uma concentração excessiva no «eu» e a ambição de perdurar conduz a «novas formas de ser». A sociedade instável da atualidade alimenta a imaturidade e a fragilidade emocional, pelo que temos uma juventude confusa e estilhaçada interiormente, embora sedenta. A Igreja terá aqui um papel importante a desempenhar, no sentido de acompanhar e «encorajar a perseverança e a responsabilidade». Sim, porque as consagradas e os consagrados, que vivem neste mundo frágil e em busca de sentido, são chamados a preencher espaços vazios da sociedade com atitudes de «bondade, compaixão e amor».
3. O segundo capítulo está impregnado da interrogação do seu título: «Uma vida religiosa secularizada?» Navegamos em águas turbulentas de complexidade, fragmentação, egocentrismo, sede de interioridade e de afetividade que caracterizam a sociedade secularizada e D. François-Xavier evoca várias visões da vida da Igreja no Ocidente com imagens sugestivas: visão catastrófica (imagem do Titanic a afundar-se); conformista (enquanto o barco avança, deixemo-lo ir); messiânica (imagem da Arca de Noé); pessimista (imagem do barco fantasma); ingénua (imagem do navio de cruzeiro); combativa (imagem da fragata); disciplinada (imagem do navio de carga); da conexão (imagem das balsas). É nesta visão que Jesus diz aos seus discípulos: Passemos para a outra margem! (Mc 4,35). A outra margem é o lugar da surpresa, da descoberta, da novidade e que se escuta em situações de crise e de conversão interior, já que a vida religiosa se vai renovando e aperfeiçoando «de crise em crise e de conversão em conversão», tinha-nos dito o Autor no início da Introdução. Requer-se-nos um fôlego destemido, sempre em busca do inalcançável, para além do mero desejo de manter as estruturas; vencer a cristalização da prevalência do senso protetor em detrimento da profecia, pois «a vida religiosa não pode limitar-se a gerir, manter, conservar e manter um sistema»; terá de romper amarras e ir para além dos limites impostos pela estrutura, numa premente dialética de equilíbrio entre conservação e ousadia. A dado momento, o cardeal François-Xavier Bustillo evoca um fenómeno doloroso e preocupante que surgiu no Japão na década de 1990: os hikikomori, isto é, o desejo, principalmente nos jovens, de se isolarem e abandonarem o mundo complicado. E é preocupante porque o ser humano é relacional e sem os outros ficará incapacitado de partilhar o melhor de si mesmo. Também na vida religiosa o individualismo e a tentação do isolamento podem alastrar e transformar a comunidade num conjunto de solidões sem afeto.
4. Passemos à outra margem! Há surpresas e desafios novos; outros mares, outros montes, outros desertos. E aqui surge a interpelação que plasma o título do terceiro capítulo: «Uma formação antiquada?» A nossa vida alimenta-se da seiva do passado, apoia-se no presente e projeta-se no futuro, numa simbiose que pende invariavelmente entre saudosismos e aspirações; é bem sabido que uma árvore sem raízes não pode viver. A autoridade, que tem como uma das suas funções a garantia da transmissão, está em crise e tal situação tem levado a uma sobrevalorização do instinto e do desejo pessoal, sendo a liberdade reduzida a dimensões materialistas e egocêntricas. Requer-se que o governo seja colegial, sinodal, com o discernimento comunitário como elemento indispensável. E em toda a vida religiosa, uma formação adequada terá de partir do testemunho fraterno alicerçado na consciência de que o outro não é um fardo, mas sim um presente que me é dado.
5. «A urgência de amar» é o título do quarto capítulo. Sim, é urgente que se seja banhado pelo amor na vida religiosa; se não estiver mergulhada nesta necessidade, faltará a fraternidade e a vida comunitária desmoronar-se-á. E isto exige que se evangelize a mentalidade, a começar pelo próprio coração; se isto não acontecer, ele permanecerá «cheio de nós e vazio de Deus». Tal tipo de evangelização do coração será visível em princípios básicos de cortesia na vida quotidiana, sendo a mesa um lugar importante onde as pessoas são transparentes no seu grau de cortesia. O respeito pelo irmão, mesmo que os seus comportamentos sejam duros e difíceis, pois podem ser sinais de sofrimento em processo de cura. Aceitar serenamente o espaço de mistério do irmão e esperar pacientemente, nunca perdendo a esperança de «uma relação pacífica», nunca ferindo a sua dignidade. Como concretizar o amor ao irmão? D. François-Xavier Bustillo propõe uma pista com base no Evangelho de Lucas 6,35-37 e acrescenta que o texto referido expõe cinco maneiras concretas e exigentes de amar: amar os inimigos, sem medo, encarando tal atitude num «projeto de transfiguração»; amar com misericórdia, devendo os religiosos ser «mestres em delicadeza fraterna»; amar sem julgar nem condenar, o que é uma «tarefa ascética»; amar perdoando, radicados na misericórdia de Deus, origem de todo o perdão; amar dando, passando «do conhecimento do amor ao ato de amar».
6. O livro conclui apelando novamente à ousadia e à passagem para o outro lado quando o cansaço carismático nos cola os pés ao chão e nos imobiliza, o que é um grande perigo para a vocação religiosa. Perante um mundo em permanente evolução, o estagnar é sempre retroceder. De facto, requer-se um retorno a uma espiritualidade da coragem, da sobriedade e do risco, procurando responder aos apelos daqueles que buscam um sentido para a sua vida. A coragem de acreditar e de avançar para o desconhecido, sempre abertos à surpresa. O calculismo excessivo corrói a interioridade e entorpece o movimento. O amor terá de ser o motor essencial em todo este processo de renovação, para que as comunidades possam ser vibrantes lugares de acolhimento e de testemunho.
Adelino Ascenso, SMBN
Presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP)